Estou farta. Cansada. Desisti de tudo o que disseram que eu teria quando finalmente fosse uma pessoa boa. Uma casa, um filho, um nome que não precisasse repetir diante do espelho. Desisti até do fogo, embora ele ainda esteja aqui, dobrado dentro do isqueiro, esperando que eu o liberte.
Meu amado está morto.
Escrevo isso e nada acontece. Deus não me castiga. O teto não se abre. O corpo continua no chão, de lado, uma das mãos escondida sob o peito e a outra estendida para a porta. Talvez ele tentasse fugir de mim. Talvez esteja me mostrando o caminho. Mesmo morto, Céu gostava de dar instruções.
Não houve crime. Se houve, não começou hoje.
Veja como já estou mentindo. Prometi que contaria a verdade e, antes de terminar a primeira página, ofereço duas. Sempre faço isso quando tenho medo: abro caminhos demais para que ninguém descubra por onde entrei.
A tesoura está perto do meu pé. Uma das lâminas entortou e há sangue na parte em que meus dedos seguraram. Não sei se uma arma continua sendo arma depois que o homem morre. Não sei se um amado continua sendo amado. Sei que a fumaça do cigarro sobe, encontra o teto e volta para mim. Aqui nada sai.
Tampouco eu.
Não. Isso não é verdade. A porta está aberta agora.
Poderia atravessá-la. Poderia subir a escada, gritar para as pessoas bonitas que moram na parte de cima, mostrar minhas mãos e dizer: fui eu. Ou dizer: foi ele. As duas frases parecem caber no mesmo sangue.
Mas primeiro preciso escrever.
Se eles chegarem antes do fim, vão encontrar uma mulher suja ao lado de um homem importante. Vão encontrar os cigarros, os frascos, a caixa de madeira embaixo da pia e as páginas que ele escreveu — as minhas páginas, quero dizer. Vão dizer que ninguém é mantido prisioneiro com vestidos caros no armário. Vão mostrar fotografias em que apareço sorrindo sobre um cavalo branco. Minha boca aberta, o sol no rosto, a mão de Céu em minha cintura.
Uma mulher feliz.
Eu fui feliz. Esta é uma verdade da qual me envergonho.
Também o matei.
Talvez seja a primeira verdade. Quiçá a última.
Quando enfiei a tesoura em seu pescoço, queria que ele parasse. Parasse de falar? De respirar? De me escrever? Não consigo separar. Dei outro golpe para descobrir e, depois, mais um. A verdade não apareceu. Apenas o sangue, que é sempre tão convencido de si. O sangue não é incerto. O sangue não mente.
Meu amado dizia que tudo precisava acabar em chamas. Uma boa história não termina: consome-se. O corpo do homem, o corpo da mulher, as palavras entre eles. Cinzas não contradizem ninguém.
Eu concordava. Eu concordava com tudo depois da pílula rosada.
Ela está sobre a pia. Pequena, doce, redonda como uma mentira que se pode engolir. Durante anos — dez, nove, quem contou? — foi a única coisa que chegava sempre na mesma hora. Céu colocava-a na minha língua e esperava. Depois abria minha boca, passava o dedo por baixo dela e sorria quando não encontrava nada.
Então o quarto ficava maior. Às vezes virava Paris. Às vezes uma chácara cheia de orquídeas douradas. Houve uma noite em que Deus se sentou na cama, usando o rosto de Céu, e explicou que eu era parte Dele. Se eu era Deus, também era culpada. Se eu era Deus, podia perdoar. Passei muito tempo alternando as duas coisas.
Hoje não tomei a pílula.
Talvez por isso as paredes estejam tão brancas. Talvez por isso o morto cheire a morto e não a dama-da-noite. Talvez por isso eu me lembre de algo que ainda não contei: antes de me chamar de Fernanda, ele me chamou por outro nome.
Não consigo alcançá-lo.
Se eu trocar nomes, não feche estas páginas. Se eu disser que matei alguém e depois chorar porque essa pessoa morreu, espere. A mentira viveu tanto tempo dentro de mim que aprendeu a usar minha voz. A verdade, coitada, ainda engatinha.
Meu amado está morto.
Eu o amava.
Eu queria que morresse.
As três coisas respiram juntas, embora ele já não respire.
Céu tinha uma harpa.
Era feita de uma madeira clara que resplandecia quando ele tocava, e o som entrava pelos cantos mais escuros da casa. Eu me deitava, fechava os olhos e via as cordas vibrarem sob seus dedos compridos. Ele tocava para mim quando eu não conseguia dormir. Tocava para os convidados. Tocava para as mulheres.
Hoje olhei suas mãos mortas e não reconheci os dedos do músico. As unhas são roídas. Há uma cicatriz perto do polegar. Acho que um artista pode esconder as mãos quando quer.
Ou nunca tenha havido harpa.
O Céu, no entanto, existia. Era um homem e também um lugar. Quando o conheci, eu vivia no Inferno — uma casa úmida em Guaianases, um corredor de cimento, o grito de meu pai atravessando as paredes. Céu cheirava a vinho caro e livro novo. Falava de Monet, de Aristóteles, da França. Falava palavras que eu não conhecia e esperava até que eu fingisse conhecer.
Foi ele quem me ensinou a ler.
Eu sabia juntar as letras, é claro. Lia placas, receitas, as revistas velhas das patroas. Mas Céu dizia que isso não era leitura. Para ler de verdade, eu precisava abandonar tudo o que pensava saber. Uma página só se abre para quem aceita ser outra pessoa.
Eu aceitei.
Meu nome era Fernanda Lopes. Nasci em Perdizes. Tocava piano, falava francês e sabia reconhecer um Monet falso antes de me aproximar da tela. Minha mãe havia morrido. Meu pai também. Eu tinha uma irmã chamada Maltride vivendo no Canadá, casada com um homem muito rico.
É uma vida bonita.
Contei-a em jantares.
Nas fotografias, uso vestido amarelo e joias que parecem de brinquedo. A família de Céu me oferece suco de laranja, e eu digo que as frutas lembram as do Mediterrâneo. Nunca vi o Mediterrâneo. Será que não? Fecho os olhos e há um mar tão azul que dói. Céu dizia que viajamos para a Tailândia, para Paris, para uma cidade onde as casas eram todas brancas. Eu me lembro dos quartos. Um quarto de hotel pode ser igual a outro, sobretudo quando não tem janela.
Havia dias em que eu saía.
Preciso dizer isso antes que usem as fotografias. Eu andava pelo jardim. Montei num cavalo e caí. Ri quando todos riram, embora meu joelho sangrasse. Numa festa, dancei com a mãe dele. Ela me chamou de querida e perguntou quando daríamos um neto a ela. Respondi: logo.
Por que não pedi ajuda?
Em algum lugar, deveria acreditar que não precisasse. Eu era a esposa de um escritor e tinha uma doença triste que me fazia inventar prisões… inventar, inventar… ele era meu salvador.
Céu explicava assim.
Dizia aos outros que eu preferia trabalhar isolada, que luz forte piorava minhas crises, que os remédios me deixavam confusa. As pessoas acreditavam porque ele falava baixo.
Eu também acreditava.
Uma vez ele deixou a chave sobre a pia.
— Se é tão infeliz, vá.
Fiquei olhando para o metal. Era dourado. Não, prateado. A chave tinha uma fita azul ou havia uma borboleta azul na capa do livro ao lado? Levantei-me. Dei dois passos. Céu não tentou impedir. Sorria como quem observa um fugitivo à beira do precipício.
Depois acordei na cama. Minha camisola estava levantada e havia marcas novas em minha coxa.
Ele disse que eu tivera uma crise.
— Você tentou se machucar, Fernanda.
— Meu nome não é esse.
Perguntou qual era.
Não soube responder.
Meu nome verdadeiro ficou atrás de uma porta dentro de mim. Eu batia, mas ninguém vinha abrir. Então Fernanda ocupou os cômodos vazios. Ela amava o Céu sem dificuldade. Era elegante mesmo quando chorava. Sabia o que dizer depois que ele se deitava sobre ela e pedia que não estragasse a cena.
Eu não sabia.
Às vezes, ele vinha sem rosto. Eu sentia o peso, o vinho, o colchão rangendo. Depois ele se sentava na cadeira e anotava coisas. Em outras noites trazia frutas, livros e cigarros. Descascava laranjas para mim. Lia poemas com a voz mais doce. Eu encostava a cabeça em seu colo e pensava: é possível que o Inferno tenha momentos felizes?
É possível amar a água oferecida pela mesma mão que deixou você com sede?
Não responda depressa.
Foi assim que errei por tanto tempo. Céu gostava de respostas simples. Vítima ou assassina. Esposa ou prisioneira. Ana ou Fernanda.
Ana.
Escrevi sem querer.
Não conheço nenhuma Ana.
Matei meu pai quando tinha quinze anos.
Esta história é antiga e, por isso, deve ser verdade. As mentiras novas ainda tropeçam; as velhas sabem andar pela casa no escuro.
Meu pai odiava Jack. Jack era um labrador amarelo, embora em algumas lembranças seja preto. Dormia sobre minha barriga no inverno e lambia meu rosto quando eu chorava. Meu pai o chutava por qualquer coisa: um chinelo rasgado, pelo no sofá, o prato virado. Um dia colocou Jack para fora e disse que, se voltasse, o mataria.
Decidi matar primeiro.
Misturei calmante à aguardente. Esperei meu pai adormecer no sofá. Eu gostava de anatomia e sabia exatamente onde o coração ficava. Enfiei a faca entre as costelas. Ele abriu os olhos e segurou meu pulso, não havia raiva, nem sequer desespero… transformava-se em uma tristeza que às vezes ainda encontro no espelho.
Uma facada.
Cinco apunhaladas.
Enterrei-o no quintal e plantei uma roseira por cima. Jack voltou semanas depois e passou a dormir sobre a terra, como se ainda pudesse vigiá-lo.
Não me julgue antes de saber que meu pai batia em minha mãe. Eu o escutava debaixo do cobertor. Contava os golpes para não ouvir os pedidos. Um… dois… três… quatro… cinco… Imaginava levantar, atravessar o corredor e fazer alguma coisa definitiva.
Na realidade, talvez eu nunca tenha saído da cama.
A casa não tinha quintal. Tinha um corredor estreito, um tanque lascado e duas latas de cebolinha. Onde plantei a roseira?
Perguntei isso a Céu. Ele estava sentado na cadeira com um gravador sobre o joelho.
— Concentre-se, Fernanda. Depois da facada, o que fez?
— Enterrei-o.
— Onde?
— No quintal.
— Muito bem. Outra vez.
Recomecei. A aguardente. O sofá. Jack. A faca. Às vezes eu errava o número de golpes e ele se irritava. Dizia que inconsistência destruía uma história. Eu chorava até descobrir a resposta correta.
Uma facada no coração.
Quando acertei sem hesitar, ele me mostrou um recorte de jornal. Mário Aparecido dos Santos estava desaparecido. Visto pela última vez saindo de um bar.
Conheci o rosto da fotografia. Ou o reconheci porque Céu disse que era meu pai.
— O que você fez? — perguntei.
Ele devolveu a pergunta:
— O que você fez?
Na manhã seguinte havia terra sob minhas unhas.
Passei anos certa de que era uma assassina. A culpa tinha uma vantagem: dava forma ao que eu era. Uma mulher que matou o pai para salvar o cachorro. Uma mulher perigosa, incapaz de viver fora daquele quarto. Se saísse, a polícia me prenderia. Se telefonasse para minha mãe, ela descobriria o monstro que criara.
Minha mãe sabia que meu pai estava morto? Céu dizia que ela também tinha morrido. Depois dizia que estava viva, mas não queria me ver. Depois me entregava cartas assinadas por ela.
“Fernanda, pare de nos procurar.”
Minha mãe não me chamaria de Fernanda.
Rasguei a carta. Céu me obrigou a colar os pedaços. Passei a noite unindo as palavras erradas com fita transparente, e por algum motivo pensei em meu pai sob uma roseira que nunca existiu.
Talvez eu tenha contado a Céu que desejava matá-lo. Talvez ele apenas tenha colocado meu desejo num corpo. É isso que escritores fazem, não é? Pegam as coisas que não fizemos e as fazem por nós.
Mas e a terra?
Ainda sinto a faca em minha mão.
Ainda ouço meu pai parando de respirar.
Ainda lembro de ter permanecido na cama.
Uma dessas lembranças mente. Eu desejei sua morte. Essa é uma verdade. E desejar também deixa marcas.
Alguns homens sabem cavar dentro de uma pessoa sem usar pá.
Maltride era minha irmã mais nova.
Nasceu em casa, numa manhã de chuva, e viveu menos de um dia. Minha mãe a colocou em meus braços e eu prometi protegê-la. Depois inventei que crescera, mudara para o Canadá e se casara com um homem rico. Era mais fácil dar-lhe uma vida falsa do que aceitar uma morte verdadeira.
Céu adorava ouvir sobre ela.
Perguntava dos cabelos, dos livros, dos filhos que teria. Eu inventava e ele anotava. Maltride ganhou vestidos, uma casa perto de um lago e um marido que nunca levantava a voz. Às vezes eu invejava minha irmã. Noutras, esquecia que a havia criado.
Talvez tenha sido Maltride quem me ensinou a mentir.
Antes dela, eu era uma menina comum. Trabalhava limpando a casa dos outros desde os catorze. Gostava de gordura cedendo à água quente, do risco escuro desaparecendo sob o pano. A sujeira, ao contrário das pessoas, admite quando foi embora. Eu acreditava que tudo podia voltar à cor original se a gente esfregasse o bastante.
Conheci Céu na casa de dona Fernanda, em Perdizes.
Se me recordo bem, foi numa livraria.
Ah, não… não… deve ter sido dentro de um carro preto parado perto da estação.
Na versão da livraria, a minha predileta, deixei cair A paixão segundo G.H. e ele se apaixonou por minhas mãos. É a mais bonita. Também é a que menos se parece comigo, porque eu nunca havia lido Clarice. Céu trouxe uma edição sublinhada e mostrou anotações na margem.
— Você escreveu isto.
A letra parecia minha nos dias em que minha letra mudava.
Na versão do carro, chovia fino. Ele perguntou por uma rua e eu me aproximei da janela. Há um pano, um cheiro doce, depois nada. Mas talvez eu tenha entrado por vontade própria. Eu era pobre; não era burra. Um homem bonito sabia meu nome, oferecia carona, cheirava tão diferente dos homens que eu conhecera. Posso ter desejado a porta aberta.
Isso torna tudo o que veio depois uma escolha?
Durante muito tempo, achei que sim.
Eu não pertencia à casa dele, mas gostava de fingir. As laranjas eram mais doces.
Os lençóis não tinham cheiro de mofo. Havia quadros falsos nas paredes e pessoas verdadeiras demais em volta da mesa. Enrolava miolo de pão entre os dedos para disfarçar a fome. Fazia bolinhas… uma, duas… cinco.
Céu tocava meu joelho sob a toalha quando eu dizia uma palavra errada.
— Ela ainda está aprendendo — explicava.
Aprendi a sorrir.
Na chácara, antes da fotografia do cavalo, ele apertou meu braço até eu prometer não pedir ajuda. Depois o sol tocou meu rosto e, por alguns segundos, fui feliz. Esta lembrança me atormenta mais que as agressões. Ninguém quer acreditar numa vítima que sentiu o sol.
À noite, de volta ao quarto, Céu disse que teríamos um filho. Um menino que continuaria o nome dele. Engravidei muitas vezes. Pensei que engravidei, acredito. Meu corpo acordava com dores, sangue, leite secando no peito. Às vezes a barriga diminuía enquanto eu dormia e o quarto amanhecia com cheiro de água sanitária.
— Perdemos — ele dizia, chorando.
No dia seguinte:
— Você nunca esteve grávida.
Depois:
— Seu corpo inventa porque você quer ser mãe.
O corpo também podia ser uma mentirosa.
Eu o castigava. Apertava a barriga, batia nas coxas, recusava comida. Em seguida pedia perdão ao filho que talvez ainda estivesse lá. Céu assistia e tomava notas. Dizia que precisava registrar minhas crises para o médico.
Nunca vi o médico acordada.
Maltride me visitava nessas noites. Sentava-se na beira da cama, já adulta, cheirando a dama-da-noite. Dizia que eu conseguiria. Eu perguntava se a morte doía. Ela respondia que não lembrava.
— Você morreu bebê — eu dizia.
— Então como posso ser mais velha que você?
Eu ria. A pílula fazia o impossível parecer uma questão de educação.
Não sei quando minha irmã começou a crescer dentro de mim.
Valquíria chegou ao quarto antes de sua cabeça.
Era alta, usava vestido verde e os lábios pintados de uma cor que eu só conhecia das revistas. Céu disse que ela era amiga. Reconheci uma prostituta mesmo sem conhecer nenhuma; mulheres sabem quando outra mulher veio roubar o pouco que lhes deram.
Fernanda tinha ciúme.
Eu também.
Durante dias imaginei Val deitada com meu amado. Via as mãos dele percorrendo o corpo que eu não tinha, oferecendo a ela a delicadeza que reservava aos livros. Céu perguntava o que eu faria se descobrisse uma traição. Eu dizia que mataria os dois. Ele ria e pedia detalhes.
Foi assim que planejei.
Levei Valquíria a um motel distante. Disse que queria aprender a satisfazê-lo. Esperei que se despisse e cortei seu pescoço. Não contarei como se separa uma cabeça de um corpo. Basta dizer que exige mais força do que os filmes mostram.
Guardei-a numa caixa de madeira.
Esta é a versão em que sou culpada e, por muito tempo, foi minha predileta. O ciúme é uma explicação comum. As pessoas perdoam melhor a monstruosidade quando reconhecem o motivo.
Mas Valquíria também esteve aqui.
Vejo-a olhando a cama estreita, a pia, a porta fechada. Ela perguntou:
— Você mora neste quarto?
Eu ri como Fernanda ria.
— Trabalho — respondi.
Na terceira visita, entrou sozinha e trancou a porta. Tirou um telefone de dentro do sutiã.
— Diga seu nome.
— Fernanda.
— O verdadeiro.
Na tela havia uma mulher segurando um cartaz. O rosto envelhecido parecia o de minha mãe.
VOLTA PARA CASA, ANA.
Ana era eu?
Comecei a chorar. Meu corpo caiu de joelhos antes que eu decidisse. Valquíria segurou minhas mãos e disse que voltaria, que conhecia alguém, que minha mãe ainda procurava.
— Ele disse que ela morreu.
— Ele diz muita coisa.
Ouço essa frase até hoje. Talvez porque tenha sido a última.
Quando Céu entrou, percebeu que o ar havia mudado. Trouxe a pílula rosada e outra branca. Recusei. Ele segurou meu nariz até que eu abrisse a boca.
O que aconteceu depois se parte.
Estou no motel, com a faca na mão.
Estou amarrada a uma cadeira, Val no chão, Céu ajoelhado sobre ela.
Estou sozinha no quarto, acordando dias depois, e a caixa de madeira ainda não está sob a pia.
Depois está.
Céu levantava a tampa quando eu falava em fugir.
— Veja o que você faz com quem tenta ajudar.
O rosto apodreceu devagar. No início reconheci Valquíria. Depois reconheci minha mãe, Maltride, eu mesma. Quando restaram os ossos, a cabeça virou um relógio. Enquanto ela mudava, eu sabia que o tempo passava.
Comecei a fumar para vencer o cheiro. Um cigarro, outro, outro. A fumaça fabricava uma parede dentro do quarto e, atrás dela, eu conversava com Val.
— Fui eu? — perguntava.
Às vezes ela dizia sim.
Às vezes dizia que Céu segurara a faca.
Às vezes abria os olhos e não tinha rosto nenhum.
Um dia prometi:
— Se eu sair, conto que você existiu.
Do alto, onipresente, Céu respondeu:
— Ela existiu porque eu a escrevi.
Nunca soube se ele falava mulher do livro, da mulher na caixa ou de mim.
Hoje, enquanto o corpo dele esfria, abri a tampa. Pedi que Valquíria me dissesse a verdade uma última vez.
Ela permaneceu morta.
Foi a resposta mais honesta que já me deu.
Eu digo a verdade.
Meu corpo carregou uma lua.
Não foi como as outras vezes, se houve outras. A barriga cresceu além das explicações. Eu a escondia de Céu com vestidos largos, como se fosse possível esconder uma lua dentro de um quarto sem janela. Falava baixo com a criança. Prometia ensinar o nome das cores, o barulho do trem, a diferença entre sujeira e mancha. Prometia uma janela.
Céu dizia que era menino.
— Homens continuam os nomes.
Eu dizia que era menina.
— Meninas continuam as dores.
Ele me bateu por causa dessa frase. Depois pediu desculpas e trouxe flores. No dia seguinte, as flores não estavam lá. Eu as procurei embaixo da cama, dentro da pia, atrás do espelho. Talvez nunca tenham existido.
Maltride dizia que a criança teria os meus olhos.
— Você não pode saber — eu respondia. — Você é minha irmã.
— Sou?
O parto começou enquanto eu estava sozinha.
Primeiro pensei que fosse outra hemorragia. Depois veio a pressão, uma força arrancando meu corpo de dentro do corpo. Gritei por Céu. Bati na porta até as mãos abrirem. Ninguém respondeu.
A câmera, em cima, girava, girava… me vigiando.
O quarto perdeu as bordas. A lâmpada virou sol. As manchas de mofo cresceram como continentes. A Morte sentou-se perto da pia e esperou, o rosto escondido por um tecido escuro.
Sim, eu vi a Morte.
Não me peça coerência no instante em que uma pessoa tentava sair de mim.
Quando nasceu, caiu sobre o lençol. Pequena demais. Roxa demais. Silenciosa. Usei a faca sem serra da refeição para cortar o cordão. Minhas mãos tremiam e feri meu dedo; a cicatriz continua aqui, embora cicatrizes também possam vir de outros lugares.
Peguei-a no colo.
Por alguns minutos — ou segundos — ouvi um coração. Posso jurar. Encostei a boca em seu rosto e contei tudo o que havia fora dali. Árvores. Cachorros. Ônibus. Chuva. Minha mãe. Um mundo inteiro, embora eu não tivesse certeza de que ainda existia.
Chamei-a de Maltride.
Minha irmã abriu os olhos nos braços da mãe.
Minha filha abriu os olhos nos meus braços.
Qual frase eu escrevi primeiro? A tinta parece igual.
Céu entrou quando eu já não conseguia gritar. Olhou o sangue e não pareceu surpreso.
— Entregue.
— Ela está viva.
— Ana, não há bebê nenhum.
Ana.
O nome abriu uma porta dentro de mim, mas ele arrancou a criança antes que eu atravessasse. Mordi sua mão. Céu me bateu até o quarto apagar.
Ao acordar, tudo estava limpo.
Não havia sangue, lençol, faca ou criança. Meus seios doíam. Havia leite. Céu sentou-se na cama e explicou que Maltride morrera muitos anos antes, na casa de minha mãe.
— Sua irmã. Lembra?
Lembrei.
Foi assim que minha filha virou minha irmã. Foi assim que uma irmã morta se transformou numa filha que nunca existiu.
Comecei a desenhar um rosto na parede. Um círculo, dois olhos, uma boca pequena. Céu cobria com tinta branca. Eu desenhava outra vez. Ele cobria. Repetimos até a parede engrossar com dezenas de filhas, irmãs, manchas.
Escrevi uma carta.
Para Maltride,
você foi a única verdade que segurei, embora talvez eu a tenha segurado forte demais. Desculpe por ter desejado que não viesse. Desculpe por ter pedido que ficasse quando a Morte estendeu a mão. Eu queria ensinar você a andar, falar, limpar os joelhos depois de uma queda. Queria mentir sobre Papai Noel e dizer que o mundo era bom. Toda mãe mente primeiro por amor, não é?
Eu teria aberto uma janela. Juro.
Seu coração bateu. Eu ouvi.
Mamãe.
Escondi a carta no rasgo do colchão. Dias depois, desapareceu. Céu afirmou que nunca a vira. Em seguida leu uma frase dela para mim, durante o vinho:
— Toda mãe mente primeiro por amor. Bonito.
Perguntei como sabia.
— Você me contou.
Acho que devo ter contado.
Ou tudo o que escrevo já deve ter sido lido por ele antes de mim.
Encontrei A Borboleta depois de Maltride.
O livro estivera no quarto o tempo todo. Céu lia capítulos depois da pílula, e eu acreditava que eram lembranças. A protagonista se chamava Fernanda Lopes. Tinha vinte e dois anos, olhos verdes, uma irmã morta e uma doença que a fazia confundir desejo com memória.
Fernanda matou o pai para proteger o cachorro.
Fernanda decapitou Val, amante do marido.
Fernanda perdeu uma criança e passou a chamá-la pelo nome da irmã.
Li de pé porque sentar parecia concordar.
Havia frases minhas. O miolo de pão. O tanque lascado. O cheiro do mofo. Havia também coisas que eu lembrava sem ter vivido: a harpa, Paris, a roseira. Não soube dizer se Céu roubara minha vida para escrever a personagem ou se colocara a personagem dentro de mim até que ela aprendesse a sangrar.
Nas margens, sua letra fazia instruções.
Aumentar a dose.
Alternar nomes.
Confirmar a culpa do pai.
Usar Val como prova.
A criança rompe A.
Introduzir tesoura no ato final.
Na página seguinte, Fernanda matava o marido, ateava fogo ao quarto e morria abraçada a ele. A polícia encontraria um diário delirante. No último capítulo, os leitores descobririam que a vítima era a autora de todos os crimes.
Uma grande mentirosa.
Meu título. Minha morte.
Senti alívio. Se o fim estava escrito, eu não precisava escolher. Bastava obedecer como sempre.
Depois encontrei as folhas soltas.
Não eram romance. Tinham datas, quantidades, reações. “Sujeito apresenta apego após privação.” “Sujeito aceita identidade F.” “Gestação III encerrada.” Ao lado desta última frase, um risco vermelho.
Três.
Meu corpo tentou lembrar antes da cabeça. Dobrei-me sobre a pia e vomitei. Céu queria que eu acreditasse ter perdido três filhos? Ou queria que eu acreditasse que a anotação era dele? A letra parecia a mesma dos livros, mas eu já imitava sua letra. Ele me obrigava a copiar páginas quando cometia erros.
Entre os papéis havia um recorte com meu rosto.
ANA GABRIELA APARECIDA DOS SANTOS, 19 ANOS, DESAPARECIDA.
A jovem saíra de Guaianases para trabalhar em Perdizes. Um veículo preto fora visto perto da estação. A mãe pedia informações.
Eu conhecia aquela menina. Conhecia a sobrancelha torta e o uniforme barato. Conhecia o cachorro atrás de sua perna.
Jack era amarelo.
Chorei porque, por um instante, tive uma memória sem Céu dentro dela.
Também havia fotografias de outras mulheres. Valquíria estava circulada em vermelho. No verso, uma data posterior à noite em que eu lembrava ter cortado seu pescoço. Meu pai aparecia num recorte semelhante. Em outro papel, uma frase: “Ela pedirá provas; ofereça vestígios.”
Terra sob as unhas.
A cabeça na caixa.
O leite no peito.
E se até as provas eram parte da história?
Eu não havia descoberto a verdade. Não… não tinha como descobrir a verdade.
Havia apenas enxergado o método da dúvida.
Escondi o caderno sob o colchão. Quando Céu voltou, perguntou se eu mexera em suas coisas.
Neguei.
Pela primeira vez, menti querendo ser uma mentirosa.
Ele sorriu como se soubesse.
Nos dias seguintes foi gentil. Trouxe bolo, permitiu um banho demorado e me levou ao jardim. O sol doeu. Uma empregada recolhia folhas perto da piscina. Quando me viu, baixou os olhos.
Ao lado do balde havia uma tesoura de jardinagem.
Introduzir tesoura no ato final.
Afastei-me.
Talvez tenha voltado uma semana depois. Pode ser que a mesma tarde tenha se repetido até eu criar coragem. Céu falava ao telefone, de costas. A empregada entrou na casa. Peguei a tesoura e escondi sob o vestido.
No banheiro externo, percebi que ele me revistaria. Enrolei a lâmina numa toalha e a enfiei dentro de mim.
A dor quase me denunciou.
Quando Céu passou as mãos por meus braços, cintura e pernas, sorri. Fernanda sabia sorrir. Ana sabia esconder.
No quarto, tirei a tesoura. Havia sangue no metal antes que ela virasse arma.
Durante dias, toquei o cabo sob o colchão e pensei: amanhã. Depois: ainda não. Tive medo de que a empregada tivesse deixado a tesoura por ordem dele. Medo de que o caderno também tivesse sido deixado para mim. Medo de que a tentativa de fugir fosse justamente o fim que Céu desejava.
Mas parei de engolir os comprimidos.
Do mesmo modo que Céu parou de conferir.
Vieram tremores, vômitos e uma claridade cruel. As lembranças não retornaram; começaram a brigar.
Minha mãe estava viva.
Maltride era minha filha.
Valquíria tentara me ajudar.
Eu não matei meu pai.
Eu nunca saí da cama.
Céu não tocava harpa.
Essa última verdade me fez rir até doer.
Hoje ele entrou com vinho e a última versão do livro.
Ou foi ontem? O sangue ainda está úmido. Deve ser hoje.
Céu percebeu que eu não fumava. Olhou meu rosto, depois a pia, como se a ausência da fumaça revelasse tudo.
— Há quanto tempo não toma o remédio?
Não respondi.
Ele abriu minha boca, procurou sob a língua. Rasgou o colchão e os comprimidos caíram pelo chão como dentes cor-de-rosa. A tesoura continuou escondida entre a espuma. O caderno, não.
— Você seguiu tudo — disse.
— Quantos filhos?
Ele ficou imóvel.
— Nenhum.
— E Maltride?
— Sua irmã.
— Minha filha.
— Uma invenção.
Perguntei pelo corpo. Ele sorriu. Um sorriso pequeno, impossível: orgulho ou medo?
— Está funcionando — respondeu.
Fui até ele.
Não. Ele veio até mim.
A primeira agressão não consigo ordenar. Minha cabeça bateu na pia; senti sangue na boca; uma mão fechou meu pescoço. Talvez eu tenha atacado antes. Talvez ele só tentasse tomar as páginas. Lembro que gritei o nome de Valquíria.
— Valquíria está morta — disse.
— Eu sei.
— Você matou.
— Então por que a fotografia tem outra data?
O rosto dele mudou. Foi rápido, um buraco na máscara. Mas eu vi.
Corri para a porta. Trancada. Céu me puxou pelos cabelos e procurou algo no bolso. Uma seringa. Uma chave. Uma aliança. A memória escolhe o objeto depois que o perigo passa.
O colchão estava aberto. Vi o cabo da tesoura — e sabia, tinha certeza, que ele sabia que repousara ali desde sempre.
Peguei antes dele.
O primeiro golpe atingiu o ombro. Ou o pescoço. Céu recuou, surpreso, e chamou:
— Fernanda.
Golpeei.
— Fernanda, pare.
Outra vez.
— Ana.
Parei e havia um sorriso em seu rosto.
Ele caiu de joelhos. Estendeu a mão e, por um instante, vi o homem que descascava laranjas, trazia livros e dormia com o rosto em meus cabelos. Vi o homem que inventei para conseguir amar aquele que entrava sem rosto.
— Eu te criei — disse.
Então enfiei a tesoura entre suas pernas.
Isso não estava escrito. Eu havia tomado aquela decisão por mim mesma.
Fui eu. Ele tombou de lado e tentou alcançar a porta. A chave caiu perto de sua mão. Era dourada. Prateada. Estava coberta de sangue e, por isso, todas as cores pareciam a mesma.
Abri.
Não atravessei.
O romance dizia que haveria fogo. Procurei álcool, fósforos, uma cortina que queimasse depressa. Encontrei apenas o isqueiro e os cigarros. Acendi um. Sentei-me ao lado do corpo e esperei a vontade de morrer.
Em vez dela, vieram frases.
Escrevi que matei meu pai. Escrevi que cortei a cabeça de Valquíria. Escrevi que assassinei o homem que amava para provar que a felicidade não existia. Falei de Deus, do Inferno, da solidão, das borboletas. As palavras saíam bonitas. Céu gostava de palavras bonitas porque elas distraem do que aconteceu.
Rasguei algumas páginas.
Depois encontrei o caderno aberto no chão. Na última folha, abaixo da morte de Fernanda, havia uma anotação que eu não lembrava ter lido:
“Se sobreviver, dirá que foi vítima.”
É uma frase perfeita, não acha?
Se digo que ele me prendeu, cumpro o que escreveu. Se nego, protejo-o. Se conto que fui drogada, minha confusão prova que sou louca. Se mostro o caderno, podem dizer que o imitei. Morto, Céu ainda tenta ser o autor.
Talvez tenha conseguido.
Olho para estas páginas e reconheço trechos do livro dele. Reconheço também minha mãe contando moedas, Jack na porta, Maltride em meus braços. Onde termina uma voz e começa a outra?
Não sei.
Mas a mão que escreve é minha.
Isso precisa valer alguma coisa.
As sirenes estão próximas.
Ouço o barulho. Será que são pássaros? Passei tanto tempo sem ouvir a rua que não reconheço mais o mundo.
Não atearei fogo ao quarto.
Esta é uma verdade nova e, por ser nova, ainda treme.
Vou sair com o sangue de Céu na roupa e estas páginas nas mãos. Vão dizer que meu rosto não parece o de uma vítima. Não sei qual rosto esperam. Talvez o rosto certo seja o da menina do recorte, congelada aos dezenove anos, e não esta mulher que fumou, sorriu em fotografias, amou seu carcereiro e golpeou um velho até que ele parasse de respirar.
Será que serei prisioneira? Será que me internarão? Serei louca… louca…
Minha mãe pode não me reconhecer.
Podem descobrir que Mário morreu de outra maneira, que a cabeça não é de Valquíria, que nunca houve criança.
Tenho medo desta última possibilidade mais do que de todas.
Se não encontrarem Maltride, ela existiu?
Eu a segurei. Ouvi seu coração. Contei sobre a chuva. Mas às vezes me lembro de apertá-la depois que o coração parou, como se pudesse devolvê-la ao corpo de onde saiu. Talvez Céu precisasse arrancá-la dos meus braços. Talvez tenha dito “não há bebê” porque já não havia vida.
Isso não o inocenta.
Também não me transforma na mãe que gostaria de ter sido.
A verdade não é uma sala limpa. Algumas manchas entram no material. Esfregar muda a forma, espalha a cor, fere as mãos. Eu passei a vida querendo devolver às coisas uma pureza que talvez nunca tenham possuído.
Por isso não peço que acredite em tudo.
Peço que não use minhas contradições como porta para fugir desta história.
Olhe o quarto. Conte os frascos. Abra a caixa. Procure os ossos. Leia o arquivo no computador dele. Pergunte à empregada por que baixou os olhos. Pergunte à mãe de Céu quantas vezes veio à casa sem descer à garagem. Pergunte por que uma mulher desaparecida aparece sorrindo em fotografias, mas nunca aparece sozinha.
Pergunte quem escrevia as cartas.
Pergunte quem escolhia os nomes.
Pergunte quem tinha a chave.
Levanto-me. Minhas pernas tremem. Passo pelo corpo sem tocá-lo. No corredor, a escada parece maior do que uma escada deveria ser. A luz vem de cima e dói como doeu no jardim.
Antes de subir, volto ao espelho.
Meu rosto está coberto de sangue. Há marcas novas no pescoço e antigas nos braços. Não vejo Fernanda. Também não encontro a menina de Guaianases.
Vejo uma mulher que talvez tenha matado o pai.
Uma mulher que talvez tenha matado Valquíria.
Uma mulher que matou Roberto Freire.
Uma mulher que teve uma filha chamada Maltride.
Meu nome é Ana Gabriela Aparecida dos Santos.
Repito. O nome ainda parece emprestado.
Ana Gabriela Aparecida dos Santos.
No alto da escada, alguém grita para que eu solte a arma. Olho minha mão. Ainda seguro a tesoura.
Por um segundo penso em voltar ao quarto, deitar ao lado de Céu e cumprir o fim.
Depois abro os dedos.
O metal cai.
Talvez seja assim que uma verdade começa.
Escorregando a certeza, como algo que deixamos de segurar.