Estou sentado na sala de espera, como de costume. Aguardo chamarem meu nome enquanto scrollo o celular por um feed que mais parece uma vitrine de gente: gente que vai a restaurante badalado, gente que passa a noite vidrada, virada, depois de algumas carreiras de pó. Scrollo e dou de cara com pessoas que já não fazem parte da minha vida.

Quando foi que as coisas começaram a ser tão voláteis? Gente que chega, gente que vai... e eu nem sei se ainda lembro o nome de todo mundo. O dedo desliza pela tela, e quase não noto o que está ao meu redor, num lugar tão movimentado quanto a estação República. Aguardo chamarem meu nome. Aguardo dizerem que é a minha vez.

Do lado de fora, forma-se mais uma fila. Todos dão seus nomes ao rapaz simpático de olhos castanhos e camisa branca. O cabelo dele tem um quê de bagunçado que, imagino, ficaria bem ao meu lado, na minha cama de casal. Olho para ele de vez em quando, esperando que me encare: a gente foderia gostoso. Deixaria que me fodesse. A gente riria debaixo dos cobertores, e a minha camisa, faltando um botão, ficaria jogada em algum canto perdido do quarto.

Ele me encara de volta, e eu sorrio. Ele disfarça. Então volto a scrollar naquele app que deve me dar dopamina.

Quando eu tinha treze anos, foi quando de fato confirmei o que sentia. Estava prestes a fazer catorze e já tinha navegado, no computador da sala de casa, por sites e blogs pornôs o suficiente para saber que tetas, vagina e tudo que pertecia ao corpo feminino não me apetecia. Mas, sem querer, no meio de toda aquela busca, vi pela primeira vez um cara comendo outro cara — e entendi: era aquilo.

Era ali que eu me imaginava.

É fato que, àquela altura, eu já tinha enfiado o dedo dentro de mim, tomado por um prazer absurdamente intenso. Era ali, no chuveiro, que meus olhos reviravam enquanto, com o dedo cada vez mais fundo, eu me masturbava numa velocidade frenética. Tentava conter a vontade de gemer enquanto a água quente escorregava em meu corpo. Mordia o próprio braço enquanto sentia o líquido quente saindo de dentro de mim.

No segundo seguinte, sentia vergonha. Vergonha por ter feito o que tinha feito.

Mais tarde, eu descobriria que aquela era apenas uma entre tantas zonas erógenas do meu corpo — como a orelha e até os meus próprios pés. Não significava nada sentir o tesão que me invadia. Mas, se meu pai ou qualquer outra pessoa descobrisse que era dali que vinha o meu prazer, que todos os dias, durante o banho, eu me tocava, eu fatalmente me tornaria aquilo que eles adoravam chamar os outros: “boiola”.

Daí, na mesma época, eu me descobria apaixonado pelas panturrilhas do Rafael. Ele corria pela quadra, fosse no futebol ou no handebol, e o barulho da chuteira riscando o chão. Eu inventava qualquer desculpa esfarrapada para continuar pregado na arquibancada, girando a minha Rainha entre os dedos, prestes a devorar o Cavalo. Mentia sobre uma má digestão da noite anterior. O professor GJ lançava um olhar beirando a pena que ardia na pele. Ele sabia. Sabia que eu só estava fugindo do pavor de ser o excluído, de ficar plantado no meio da quadra, um peso morto para quem ninguém ousaria tocar a bola, esperando, esperando...

Todo mundo percebeu, muito antes de mim, o abismo que nos separava.

Eu era diferente deles.

Sempre fui.

— Semana que vem você vai ter que jogar, João.

Eu assentia, a visão turva focada apenas na minha Rainha, encurralada pelo Bispo de Raquel. Eu gostava das pessoas que eram diferentes, das que fugiam da normalidade — ou, em algum lugar dentro de mim, sabia que o precípicio que me separava dos outros era o mesmo que me aproximava de pessoas como ela, com uma franja cobrindo metade do rosto e poucos sorrisos.

Raquel não era de falar muito. Na maior parte do tempo, líamos alguma literatura infantojuvenil ou jogávamos xadrez; não havia espaço para sairmos da superficialidade daquele contato. Se saíssemos, entraríamos num campo que nem eu nem ela sabíamos onde daria. Imaginava que, no caso dela, talvez fosse a relação turbulenta com os pais. Ou, quiçá, a morte do irmão, assunto que ela nunca abriu para ninguém.

Ela tentou trancar a dor a sete chaves, mas a tragédia vazava pelos poros, e todos nós sabíamos. Sabíamos porque, quando alguém morre, a dor do outro vira espetáculo. O mundo inteiro se transforma numa plateia voyeurista.

O fetichismo da morte.

— Bom jogo — falei depois do xeque-mate de Raquel.

O rosto dela permaneceu quase imóvel, traído apenas por um sorriso singelo que acabou escapando.

— Mais uma rodada?

Acenei com a cabeça. Agora, eu ficaria com as peças pretas.

Estou apertado. Seguro a vontade porque sei que logo vão me chamar para a coleta do exame. A sensação me joga para quando eu era mais novo e anunciei, sem maldade nenhuma, que precisava fazer xixi. Na mesma hora, o namorado da minha irmã me repreendeu:

— Olha lá o João. Vai fazer xixi igual menininha — ele gargalhou, a voz enchendo a sala. — Homem não faz xixi. Homem mija.

Todo mundo, de repente, descobriu a delícia de se sentir superior a alguém: eu era a chacota.

Naquela posição subjugada, berrei que era menino, não menininha.

Daquele dia em diante, passei a ficar mais apertado. Guardava a vontade para mim; preferia não dizer nada. Com o tempo, passei a avisar que precisava ir ao banheiro; mais tarde, ao toalete, testando eufemismos. Até que, por fim, o círculo se fechou, e voltei a assumir que tô doido para fazer xixi.

— Licença, Heitor, né? — pergunto ao moço da recepção, pescando o nome no crachá pendurado em seu pescoço. Agora o encaro a poucos metros de distância. — Acha que vai demorar muito pra coleta?

Ele sorri.

— Qual é a sua senha, João?

Ele lembra de mim. É certo que bato ponto ali quase todo mês, mas, ainda assim, são tantas pessoas... principalmente no fluxo da estação República.

Tateio o bolso, encontro o papel e o entrego.

— Vou verificar para você.

Ele sai, ainda sorrindo na minha direção. Acompanho seu corpo desaparecer por uma das salas do pequeno corredor. Naquela estação, centenas de pessoas param todos os dias; milhares de outras correm, apressadas, para o trabalho. E, no meio de tudo aquilo, Heitor sabe que eu sou João, e eu sei que Heitor é Heitor.

Antes mesmo que ele volte, vejo minha senha aparecer no pequeno monitor.

Eu sempre gostei de caras mais velhos. Aliás, já tinha falado com tantas pessoas sobre essa vontade de sair com homens que me possuíssem inteiramente, mas não sabia muito bem por onde começar.

Na escola, quando fiz dezesseis anos, me vi num novo grupo de amigos. Gente que falava mais, me ouvia e com quem passei a ter uma relação mais profunda. Raquel já tinha mudado de colégio — havia passado num técnico —, e nossa amizade sobreviveu apenas pelo site de fanfics em que nós dois tínhamos conta. Ela lia as minhas histórias; eu lia as dela.

Acho que foi naquela época que me dei conta de que as pessoas nunca são. Ninguém é para sempre. Ninguém vai ficar pelo resto da vida. As pessoas simplesmente estão. Naquele momento, já não estávamos mais um na vida do outro como antes. Ainda assim, lembro de Raquel com enorme carinho. Algum dia as memórias nos deixarão em paz? Sinceramente, penso que não.

Memórias, memórias... Servem para dizer tudo o que um dia também fomos, antes de estarmos em outro lugar.

Pois bem.

Meus melhores amigos — um grupo pequeno, de apenas três pessoas — já sabiam da minha sexualidade, ainda que Letícia me julgasse horrores porque eu tinha muito mais tesão do que ela. Talvez me julgasse também porque quase todas as minhas conversas eram pautadas por caras mais velhos, homens que eu encontrava num site de bate-papo.

De fato, eu me expunha. Como quando fiquei com Vinícius, um rapaz de trinta e três anos, e eu, com dezesseis. Ele queria me levar para um motel. Sussurrou isso no meu ouvido enquanto passava a língua ali — foi quando descobri mais uma zona erógena. No entanto, eu era menor de idade. Não que isso importasse tanto em muitos daqueles lugares.

No fim, ficamos no mesmo lugar de sempre: uma sala de cinema infantil, no meio da tarde. Até hoje me pergunto como ele tinha aquelas tardes livres para fazer o que quisesse. Onde é que esse homem trabalhava?

Nosso contato era simples: eu, de lado, enquanto sentia o que havia entre as pernas dele crescer dentro da minha boca. Ele puxava minha cabeça para cima, ensinando-me a esconder os dentes. Ficávamos ali, por minutos, naquele movimento repetido, quase hipnótico, enquanto eu sentia o cheiro viril que exalava de seu corpo.

Eu mesmo não entendia muito bem o que estava fazendo. Mas devia ser isso, não? O tesão que move a puberdade dos meninos, a adolescência e talvez o restante inteiro de nossas vidas — pelo menos até que o corpo pare de fabricar tanta testosterona, adrenalina e ocitocina.

O feixe de uma lanterna estourou em nossos rostos logo depois de terminarmos o que tínhamos ido fazer ali.

— Vocês não deviam fazer esse tipo de coisa aqui — avisou o lanterninha, cravando os olhos na gente, ainda que não tivesse prova alguma do que dizia.

— Não estamos fazendo nada — respondeu Vinícius, abrindo um sorriso.

A discrepância de idade entre nós era perceptível.

— Quantos anos você tem? — o lanterninha perguntou, jogando a luz direto no meu rosto.

— De-ze-ze-nove — inventei, gaguejando, sem saber o que mais ele perguntaria.

— Cadê o RG?

— Não trouxe...

Vinícius soltou um suspiro entediado e abriu a carteira. Puxou uma nota e a enfiou na mão do rapaz. O lanterninha assentiu e deu meia-volta, murmurando que a gente devia se retirar.

Vinícius exibiu os dentes perfeitamente alinhados, agarrou meu cabelo com força e puxou meu rosto. Encaixou a língua no meu ouvido e, num beijo úmido, sussurrou:

— Da próxima vez, eu quero te comer.

Voltei para casa e bloqueei Vinícius.

Nunca mais nos falamos.

Até hoje não sei explicar o motivo exato. Talvez fosse a diferença de idade. Talvez a sensação de ser apenas um pedaço de carne deliciosa, prestes a ser devorado por ele. Tive medo, se é para ser sincero. Medo de romper a barreira da minha própria virgindade. Medo, talvez, de descobrir que, depois de atravessá-la, não haveria ninguém do outro lado.

— Você já sabe como funciona, certo?

Vejo a enfermeira pegar o aparatinho de furar o dedo e noto que precisa conferir meu nome na ficha.

— João?

— Sim, sim.

A sala é minúscula; mal cabemos eu e ela. Pelo volume de papéis sobre a mesa estreita, noto que muitas pessoas lá fora esperam pelo mesmo que eu. Existe sempre um sentimento claustrofóbico nesse tipo de momento, nessa espera para saber o que vai acontecer. Parece que as paredes cinzentas, a voz cansada da enfermeira e todo o restante se fecham sobre mim. Meus pensamentos embaralhados se juntam e dizem aquilo que mais temo.

Acho que já sei a resposta.

E as paredes se encolhem cada vez mais... encolhem... encolhem...

— É só uma picadinha...

Sinto o aperto no dedo indicador, o clique da canetinha, o espremer, até que a gotinha de sangue cai.

— Prontinho. — Ela olha de novo para a prancheta, conferindo quem eu sou. — João, agora é só esperar. Entre quinze e vinte minutos, a gente te chama de novo.

Saio da sala um pouco atordoado. Sangue, mesmo em pequenas quantidades, sempre me deixa desconfortável. Sei que terei de esperar mais um pouco. Desbloqueio o celular enquanto caminho e dou play numa playlist dos anos 80 no Spotify.

Posso, finalmente, ir ao banheiro fazer xixi.

Tive, depois, alguns dias péssimos. Dias em que questionava o motivo de tudo aquilo, a imensidão da vida, a finitude dos laços, as coisas inexplicáveis e, por isso mesmo, tão instigantes. Houve um dia em que achei que não conseguiria mais ouvir a própria voz, de tanto choro que engolia.

Desde que tudo aconteceu, há uma fadiga tomando conta de mim, uma não vontade de passar por tudo isso. Penso em como falar para alguém, para as pessoas, para mim e para o outro. Em olhar no espelho e parecer que nada mudou.

Mas tudo muda o tempo inteiro.

Meu corpo só não sabe que é um invólucro de tantas outras coisas que irrompem na experiência de estar vivo. Eu sou aquilo que não queria ser, aquilo que prometi que nunca seria.

Logo eu.

Logo eu, que sempre me cuidei tanto.

Eu sei que cuidado não é imunidade. Sei que aquilo não é castigo, nem sentença moral, nem prova de caráter. Ouvi tudo isso, li tudo isso, repeti tudo isso para mim mesmo. Ainda assim, dentro de mim, uma voz muito mais antiga insiste: logo você. Você, que tentou fazer tudo certo.

Sou, agora, um eu diferente de tudo o que um dia fui. Será que algum dia vou poder voltar no tempo e desfazer as coisas que fiz?

Não quero ter vergonha de quem sou. Às vezes, tenho. Sinto-me como uma espécie de imundice, alguém que não deveria ter nada. Deveria estar esquecido, largado, sozinho, no meio dessa sujeira toda.

Um leproso.

— Como é que posso te ajudar?

— Doutora, faz algumas semanas que tenho sentido algo estranho... — aponto para trás, sem dizer exatamente onde está o problema, mas é óbvio que ela sabe muito bem do que estou falando.

— E incomoda? O que você sente lá?

— Não, não... Eu fui me tocar. Sempre faço isso durante o banho, sabe? — começo a dizer, procurando as palavras exatas e esperando que ela possa afastar todo o constrangimento daquela sala. Um computador ocupa a mesa inteira e nos impede de olhar nos olhos um do outro. Melhor assim. — E senti como se tivesse umas bolinhas... Não sei explicar direito.

Eu tinha tirado algumas fotos. Mas até disso tinha vergonha de mostrar a ela.

— Bom, deita ali que eu vou te examinar.

Nunca tinha me deitado naquela posição. Pensei que talvez estivesse do lado errado, com a cabeça voltada para o canto oposto. Não precisei fazer muita coisa. Também não saía lágrima alguma dos meus olhos, apesar da vergonha daquilo que eu havia me tornado, de não saber exatamente o que começava a acontecer com meu corpo: uma mudança drástica que, embora eu ainda não soubesse, não seria o fim dos meus tempos.

Abaixo as calças e, antes que eu consiga reagir, sinto entrando em mim. Agora, sim, estou completamente invadido. Irônico, não é? E é completamente natural que precise ser assim. É sórdido pensar que foi do mesmo jeito que descobri minha sexualidade e que, naquela sala de consultório, sinto outro dedo invadindo o meu próprio eu.

A médica já deve ter feito um diagnóstico. Só precisa saber o quanto aquilo está me ferrando: se tem dentro, se tem só do lado de fora, quantas são aquelas bolinhas incessantemente chatas.

— A gente vai precisar fazer a remoção a laser. Vou pedir um exame adicional para investigarmos a quantidade e, depois disso, marcamos a cirurgia.

Fico incrédulo por precisar de uma cirurgia. Não sabia que era uma condição grave, mas ela explica que teremos de enviar o material para uma biópsia, a fim de verificar se existe alguma malignidade.

Depois que tudo é dito, penso que, no mês seguinte, farei minha primeira viagem internacional.

E estou louco para beijar um alemão.

— Oi, João. Fica à vontade. Pode se sentar — ela diz quando entro na sala. — Eu me chamo Fabiana e faço parte da equipe médica daqui. Faz uns três meses que você veio buscar o medicamento, não é?

Ela sorri.

Balanço a cabeça, confirmando. Quero saber o resultado do teste. Preciso saber, mas as palavras não querem sair da minha boca. Não há som. Estou mudo.

— Você parou de tomá-lo?

— Tem umas três semanas que parei.

— Entendi, João... Bom, a gente vai precisar fazer mais um teste, com outro laboratório, para confirmar o diagnóstico. Estou vendo aqui que o seu teste deu positivo. Vou te explicar como tudo funciona. Não precisa se preocupar, tudo vai ficar bem.

Sua fala beira o ensaiado, embora deva ser completamente antinatural fazer aquilo. Deve ser uma merda comunicar, todos os dias, a pessoas — gente, seres humanos — que agora viverão o resto de seus dias com uma condição que não tem cura.

Quero dizer alguma coisa, mas meu corpo tem uma reação insuportável, ainda que involuntária: sorrio em situações em que deveria chorar. Em que deveria sentir o baque, gritar. Enquanto aquelas paredes de drywall parecem prestes a se romper e desabar, e ao fundo consigo ouvir o barulho do metrô, penso que minha vida, como eu a conhecia, ganhou um ponto-final.

Fim da linha.

Eu perdi a batalha, e eles, todos eles, ganharam de mim. Acho que sinto mais raiva do que qualquer outra coisa. Não quero dar a nenhum deles o gostinho da vitória.

— Agora, a gente vai aguardar o outro resultado — eu sequer sinto meu dedo ser picado mais uma vez — e, se ambos derem positivo, o diagnóstico é confirmado. — Ela me olha com compaixão. — E quero te garantir que nada na sua vida vai mudar, independentemente do resultado. Hoje em dia, as pessoas vivem normalmente com essa condição.

Olho no fundo dos olhos dela, sabendo que existe ali uma vontade verdadeira de que aquelas palavras sejam verdade.

Tudo há de mudar.

Só espero que a mudança seja lenta, devagar, e que meus linfócitos sejam bravos o suficiente para combater o que vier à tona.

— Deve ser uma merda o seu trabalho... — respondo, abaixando a cabeça e olhando para os meus pés. — Dizer todo dia para alguém que a vida dela mudou completamente e ainda ter que ser positiva, sorrir e fingir que nada saíra do seu devido lugar...

Ela me olha, incrédula, e solta um suspiro longo.

— Posso dizer que não é um trabalho de dias tão fáceis.

— Imagino que não seja.

— Mas as coisas não são mais como nos anos 80. Já temos muita informação, e o principal problema é o preconceito.

Balanço a cabeça. Nos últimos dois meses, ouvi todos os podcasts existentes no Spotify sobre o tema. Sei tudo sobre aquela condição. Sei que é possível ter uma vida normal. Sei que, com o devido tratamento, posso viver anos e anos sem ter sequer um problema.

E, ainda assim, é uma merda.

A informação entra pela cabeça, mas não chega ao lugar em que a vergonha foi criada. Ali, continuam o namorado da minha irmã, meu pai, o professor, a quadra inteira. Continuam todos aqueles que disseram, sem dizer, que gente como eu acabaria assim.

E eu não quero que tenham razão.

Ainda assim, tenho certeza de que remédios tão fortes desbalancearão toda a minha existência. De que não terei coragem de contar. De que jamais pronunciarei em voz alta o meu diagnóstico.

— Eu vou fazer a entrega dos seus dois primeiros frascos. Você vai tomar todos os dias, a partir de hoje. A gente já vai fazer uma coleta de sangue e mandar para o centro especializado. Depois disso, seu acompanhamento será neste endereço. — Ela me entrega um papel. — A partir de hoje, você segue todo o tratamento por lá.

Aceno com a cabeça, concordando com tudo o que ela diz. Enfio os medicamentos na mochila.

— Tem mais alguma coisa? Ou tá tudo certo? — Minha voz sai fixa, sem qualquer tremor.

— Eu só queria te dar um abraço. Você me permite, João?

Fico surpreso com Fabiana. Não esperava aquele pedido. Minha cabeça, mais uma vez, se move para cima e para baixo, e o corpo dela encosta no meu. Sinto seu abraço e o desejo genuíno de que eu fique bem.

Uma hora ou outra, eu devo ficar.

Uma hora ou outra, eu sobreviverei.

Beijei um alemão.

Viajei para a Europa e fiquei com um cara cujo calor, quando a pele dele encostava na minha, fazia parecer que eu vinha de um país quase nórdico — e não o contrário. Ele aquecia partes de mim. Seu hálito fresco tocava o meu — maldormido, com gosto de hostel encontrado às pressas e que não custava mais euros do que a conversão me permitia pagar.

O quarto dele estava lotado de livros. Torres e mais torres consumiam cada espaço. No chão, havia apenas um colchão e, com um sotaque inegavelmente germânico, ele dizia que queria me sentir dentro dele.

Sorri enquanto mordiscava seus lábios. Dizem que europeus não usam a língua.

Ele usava.

E como usava...

Acendemos um cigarro de maconha em seguida. Nos sentamos no parapeito da janela, que dava diretamente para um parque em Berlim. Um entre tantos outros.

— Você beija bem — ele me disse.

— Eu é que diria que o seu beijo não é daqui.

Rimos juntos.

— Meu marido é do Caribe. Por isso beijo tão gostoso.

— Calma. Você é casado?

— Quer conhecê-lo?

Antes que eu pudesse responder, ele me puxou pela mão. Tentei dar um último trago no beck que segurava e quase não consegui.

A composição da casa do alemão, que se chamava Franz, era esquisita: os sapatos enfileirados do lado de fora e, depois do hall de entrada — ou de um corredor, se bem me recordo —, mais três ambientes. Quando cheguei, apenas o quarto lotado de livros estava aberto. Agora, Franz abria outra porta.

Vi o marido dele ali.

Sentado.

Sorrindo. Será que na outra porta tinha outro homem? Pensava.

— Esse é o garoto gostoso que eu queria te mostrar — disse Franz.

Ele me girou com as mãos, como se eu fosse um manequim em exposição. Senti o rosto ficar vermelho.

— Se quiser, nós dois podemos brincar com ele depois.

— Prazer, prazer! — falei. — Estou com um pouco de pressa, mas acho que fica para depois...

— Alejandro — disse ele, estendendo a mão. — Eu me chamo Alejandro.

O sorriso parecia saltar de sua pele escura. Alejandro parecia ter saído de uma revista: esbelto, sorridente. Um modelo, certamente.

Quando menos percebi, a pressa se aquietou. Estava de férias, afinal. Nós três tragávamos o cigarro e nos beijávamos.

Beijávamos.

Eu estava sem amarras.

Franz ria contra a minha boca. Alejandro segurava minha cintura. Pensei se deveria contar.

Se deveria dizer. Falar em voz alta aquilo que eu era.

Em meio aos beijos molhados e aos gemidos que pareciam despertar as partes mais dormentes de mim, eu acordava.

Tanto fazia.

Indetectável.

Se um dia eu quisesse, contaria para quem eu quisesse.

Se um dia eu quisesse.

Eu não havia perdido.

Naquele dia, queria trepar com eles.

Naquele dia, a gente treparia até o sol raiar.