Esses dias, eu caminhava entre a Estação República e a Praça Dom José Gaspar, por ruas cujos nomes finjo não conhecer — mentira: conheço, só não gosto deles.

Xavier de Toledo. Marquês de Itu. Major Sertório.

Nomes de homem, nomes de morto. Placas frias ocupando o lugar das árvores bonitas.

Sete de Abril.

Aliás, o sete sempre me pareceu um número sem serventia; e, Novembro soaria melhor. Talvez a numerologia explique essa obsessão pelo sete. Ou talvez amanhã uma IA demente me explique tudo.

Naquela caminhada torta — tropeço, tropeço —, minha cabeça respondia, sem voz, a perguntas que eu nem sabia formular. Minha boca produzia apenas gemidos surdos: fonemas que se enroscavam, atropelados numa esquina escancarada.

Eu ainda sentia o fiapo de madeira espetado no dedo, latejando como uma ferida que nunca cicatrizaria. Olhava para o céu e via nuvens violáceas sendo retalhadas pelos arranha-céus — órgãos de cimento perfurando uma pele etérea. Se eu nunca tivesse beijado o vento europeu ou bebido as piña coladas do Caribe, juraria que o centro do mundo ficava ali, no meio da República.

São Paulo fede a mijo e sonho.

Mijo de quem a cidade abandonou na rua. Perfume caro parcelado em doze vezes. Merda de cachorro. Suor de carne cansada.

Trabalhador.

Bicho.

A gente é bicho, lambuzado de si, e ainda tenta arrancar a casca do bicho alheio. No meio da lama, amontoam-se corpos tratados como se fossem o próprio pecado.

Bichas, bichas.

“Que Deus tenha misericórdia”

— dizia minha avó, exalando incenso e medo.

Amém. Amém.

Pensei em quantos gozos foram sufocados naquelas ruas antes que soprasse a primeira brisa da manhã. Quantos corpos se aninharam na sarjeta, sujos de ressaca, os pés escuros e os dentes batendo de frio?

Como o ser humano, tão pequeno, sapateou o chão e ergueu prédios capazes de tocar o céu?

Hoje, vivemos empilhados — carne sobre carne, desejo sobre desejo. Acima da terra, cubos de insônia. Abaixo dela, o metrô cospe almas sem escapatória.

Latido de cachorro.

Sirene.

Gemidos calados.

Do celular, ouvi notícias de uma guerra de gigantes: China, Estados Unidos, um bordel de nações que se vendem aos próprios medos. Guerra comercial, guerra de egos, guerra de gente que não se importa.

Tanta mente pensante, e ainda matamos por fronteira, por bandeira, por um estalo de poder.

Invenções.

Aviões que carregam cadáveres e dinheiro. Prédios que refletem a luz, confundem pombas e fabricam dor.

E eu ali, sentado numa cadeira de escritório, olhando pela janela, enquanto a vida passa... passa...

Mais uma xícara de café.

Cabeça pensante. Coração anestesiado.

Faço uma oferta para pagar mais barato do que aquilo deve custar. O cara precisa vender.

Coitado!

Lembrei-me de Clarice, por quê será?

“Todos nós somos um — e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito…”

Clarice Lispector

Será que somos mesmo?

Ora me exploram, ora exploro.

Quero rasgar o tédio, arrancar as unhas encravadas, explodir no asfalto imundo. Dou dois reais a um homem na rua — e minha mão arde de santidade fingida. Separo um prato de comida para alguém — e meu estômago lateja de culpa festiva.

Olho para os arranha-céus, mausoléus da ambição, e sinto vontade de escalar até a borda para gritar na cara do próprio Onipotente:

— E é Você quem ama tanto?

Mas Deus ajuda quem cedo madruga...

São Paulo morde a carne da gente, e a gente sorri como criança faminta. Carrego no bolso um celular que faz bip e dá ordens. Um bip cospe mais uma obrigação. Outro sussurra: consuma para existir.

Agora basta escanear.

Pix enviado.

Obrigado, Banco Central. Salvou nossas vidas!

Enquanto isso, João Cabral de Melo Neto sussurra de uma ponte: que diferença faria se, em vez de continuar, alguém saltasse para fora da vida?

Que diferença?

Num minuto, podemos virar pó, sangue e memória — engolidos por uma moto, por um vacilo da mente, por um suspiro que faltou.

Tanta gente sai da República.

Tão rápida a saída. Tão fácil desaparecer.

Ainda assim, continuo.

Quer dizer: por um lado, sinto-me devorado. Por outro, invejo a parte de mim que ainda consegue ver beleza nessa devoração.

Viver deve ser bom.

Quando se pode viver.

Pergunto, então: quando é que a gente realmente aprecia? Quando é que o corpo consegue parar de se defender e simplesmente ser? Como engolir a inércia dentro de um corpo que nasceu para arder?

Continuo pensando.

Inquieto.

Devorado pelas minhas próprias palavras, enquanto mais gente sai da República.